Coronavírus

Fungo preto e Covid-19: entenda a relação entre as doença e saiba como está o quadro no Brasil

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Os casos de murcomicose associados à Covid-19 aumentaram na Índia, com nove mil registros apenas em maio de 2021. No Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, são 49 casos confirmados até 14 de junho, 19 em pacientes contaminados com o SARS-CoV-2, o coronavírus. O Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná faz parte da Rede Brasileira de Vigilância em Murcomicose e é um dos hospitais referência no diagnóstico no estado.

“O número de casos de mucormicose no Brasil aumentou em 2021. Nada comparável ao que ocorre na Índia. No Brasil e na maioria dos outros países, exceto a Índia, a aspergilose invasiva (infecção causada pelo fungo Aspergillus) e a sepse por Candida, são mais comuns que a mucormicose em pacientes com Covid-19”, informa o médico infectologista e professor Flávio Telles, do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Paraná.

Até o momento o HC não registrou casos de murcomicose em pacientes com Covid-19. “É muito difícil observarmos um aumento expressivo de casos de murcomicose no Brasil como acontece atualmente na Índia. A Índia já registrava muitos casos de murcomicose, mesmo antes da pandemia. No Brasil costumamos ter poucos casos e não se espera um surto aqui”, avalia Rigielly Caroline Raimundo Cognialli, farmacêutica e bioquímica do HC.

Índia

De acordo com o professor Flávio e com Rigielly, a Índia tem uma combinação de fatores que levou ao aumento expressivo de casos de murcomicose associados à Covid-19. O país tem grande número de habitantes com diabetes, muitos sem tratamento. As características culturais, socioeconômicas, sanitárias e religiosas podem contribuir para o crescimento de pacientes com murcomicose.

A murcomicose é considerada infrequente no Brasil e no resto do mundo. Entretanto, o número de casos notificados ao Ministério da Saúde aumentou em 2021 em relação ao ano anterior, quando houve 36 registros em um período de 12 meses. Os dados nacionais, refletem os alertas publicados pela Organização Panamericana de Saúde (OPAS) e pela Agência Nacional de Saúde (ANVISA).

A doença tem alta taxa de letalidade. A cada 10 pessoas diagnosticadas com mucormicose, entre quatro e sete morrem. Por isso, o diagnóstico precoce e rápido é essencial. Os casos de mucormicose são considerados emergência no Laboratório de Micologia do HC-UFPR/Ebserh. A equipe médica responsável pelo paciente é informada imediatamente sobre o diagnóstico para iniciar os procedimentos terapêuticos que podem salvar a vida do paciente. O tratamento é embasado em três procedimentos fundamentais: diagnóstico precoce, controle dos fatores de risco, remoção cirúrgica dos tecidos necrosados e utilização de antifúngicos, informam o professor Flávio e a farmacêutica Rigielly.

A doença é conhecida popularmente como fungo preto ou fungo negro, pois necrosa os tecidos. No entanto, os fungos da ordem Mucorales – que causam a murcomicose – são hialinos, ou seja, têm a parede celular transparente e são encontrados no ambiente: no ar, em água poluída, em material orgânico em decomposição.

A forma clínica mais frequente da murcomicose é a rino órbito cerebral. “O fungo invade o interior dos vasos e interrompe o fluxo sanguíneo, causando necrose destas regiões: do nariz, do céu da boca, algumas vezes acometendo o globo ocular, fazendo com que o paciente perca a visão. Se não for tratado, dissemina para o sistema nervoso central”, explica o professor Flávio, que também é coordenador do Comitê de Micologia da Sociedade Brasileira de Infectologia

A transmissão mais comum é por inalação, que ocorre em diabéticos ou pacientes hematológicos e transplantados, mas também por meio de traumas na pele ou por infecção gastrointestinal.

Os fungos que causam a murcomicose usualmente não acometem indivíduos saudáveis, mas são perigosos e letais para pacientes debilitados por diabetes mal controlados, portadores de neoplasias, especialmente as hematológicas como leucemias e linfomas, os transplantados de órgãos sólidos e também pessoas com uso intenso e contínuo de corticosteroides (usados no tratamento inflamações crônicas). “A doença também está muito associada aos desastres naturais, como tornados e erupção de vulcões. Além de acidentes de carro, guerras etc.”, enumera Regielly.

O Laboratório de micologia da ULAC do CHC- UFPR/Ebserh HC, é um centro de referência para diagnóstico de infecções por fúngicas no Paraná. Lá são realizados o diagnóstico de várias outras doenças causadas por fungos. O local é qualificado para realizar a caracterização e diagnóstico rápido de várias micoses humanas, o que é crucial para o tratamento. “É um serviço especializado que existe há 37 anos. Poucos hospitais têm esse serviço que está ligado a algumas clínicas: infectologia, dermatologia. O serviço realiza o diagnóstico desde micoses superficiais até micoses profundas e sistêmicas. É um serviço de referência”, descreve a farmacêutica Marisol Domingues Muro, chefe da Unidade de Laboratório de Análises Clínicas do CHC-UFPR/Enserh.

O laboratório foi fundado pelo professor Flávio Telles. Atualmente conta com uma equipe dedicada exclusivamente ao diagnóstico micológico. O laboratório também proporciona atividades de ensino, pesquisa e extensão.

 

Fonte: bemparana